A certificação B, criada pelo movimento internacional B Lab, tornou-se um dos principais instrumentos de distinção corporativa em sustentabilidade. O selo atesta companhias que assumem compromisso jurídico com todos os stakeholders — e não apenas com acionistas —, demonstrando desempenho socioambiental mensurável e verificado por auditoria.
Segundo o Relatório Global do B Lab 2024, o número de Empresas B cresceu 16,3% no último ano, superando 8.400 organizações certificadas em 96 países. A América Latina responde por uma das maiores taxas de crescimento do movimento. Ainda de acordo com a instituição, apenas 4% das empresas que iniciam o processo alcançam a certificação final.
Empresas certificadas como B Corp demonstram maior resiliência em cenários de crise e desempenho financeiro mais consistente no longo prazo, combinando propósito, governança e resultados econômicos acima da média. O diferencial não decorre do selo em si, mas da integração estrutural de práticas ESG na governança e na cadeia de valor.
Grupo Moura é case no Brasil
No Brasil, um exemplo é o Grupo Moura, certificado como Empresa B em 2024. "Estruturamos, ao longo da última década, um sistema de gestão ambiental que inclui um Programa de Gestão Hídrica que alcançou um Índice de Consumo Efetivo de Água (ICEA) de 83% e que contribui diretamente para a redução no consumo nas operações. Promovemos também a adoção de 100% de matriz energética renovável, alinhada à transição para uma economia de baixo carbono. E garantimos a logística reversa integral de todas as baterias comercializadas no Brasil, com destinação adequada de 140 mil toneladas em 2024 por meio do Programa Ambiental Moura (PAM)", enumera o diretor de Metais, Compras e Sustentabilidade do Grupo Moura, Flávio Bruno.
No pilar social, o Programa de Diversidade & Inclusão da organização se consolidou com iniciativas de engajamento, implementação da Academia de D&I e lançamento do pilar Gerações, que se une aos de Raça e Etnia, Pessoas com Deficiência e Orientação Sexual e Identidade de Gênero. O conjunto de ações estão ligadas diretamente à temática de Direitos Humanos.
A empresa também soma 420 mil horas de formação de colaboradores e 5 mil horas de trabalho voluntário em programas de impacto comunitário. É também reconhecida pelo Great Place to Work entre as 55 melhores empresas para trabalhar no Brasil e no Top 10 da Argentina.
"A adesão ao Sistema B consolida, na prática, a estratégia de longo prazo da Moura em torno de circularidade e inovação tecnológica. A companhia tem investido em pesquisa e desenvolvimento de novas soluções de armazenamento de energia — de baterias de lítio a sistemas BESS —, integrando a certificação B ao desenho de produtos e à governança de cadeia", reforça Flávio Bruno.
Novos padrões para reduzir greenwashing
Em 2025, o B Lab implementou os novos padrões V2.1, que substituem a pontuação mínima de 80 pontos por requisitos obrigatórios temáticos, como clima, direitos humanos, trabalho digno, diversidade e governança justa. Essa revisão amplia o rigor da certificação e reduz margem para arbitragens ou "greenwashing", tornando a adesão mais exigente e comparável entre países.
"Quando falamos em sustentabilidade, nosso direcionador é claro: queremos operar em patamares internacionais. A escolha pelo Sistema B não é um selo, é um desafio permanente. Ele nos provoca a adotar práticas vanguardistas, ir além das exigências da legislação brasileira e acelerar a nossa evolução. É assim que transformamos compromisso em método e nos posicionamos, de forma concreta, como uma energia de impacto positivo para um mundo melhor", comenta o diretor de Metais, Compras e Sustentabilidade do Grupo Moura, Flávio Bruno.
O fortalecimento da certificação como instrumento de governança — e não apenas como chancela reputacional — é defendido por Jay Coen Gilbert, cofundador da B Lab e formado em Government pela Harvard University. Gilbert argumenta que, diante do avanço da agenda ESG e do escrutínio de investidores e reguladores, a certificação só mantém relevância quando sustentada por dados auditáveis, métricas comparáveis e processos contínuos de diligência, em nível equivalente aos adotados em finanças e compliance. O novo modelo implementado em 2025, alinhado à Diretiva Europeia de Devida Diligência (CSDDD 2024/1760), transforma o Sistema B em referência para empresas que desejam operar em mercados regulados e atender exigências de transparência da União Europeia.
A tendência, segundo o B Lab, é que o movimento se torne menos identitário e mais normativo: um padrão de governança reconhecido por investidores, bancos e clientes corporativos. Para grupos industriais de base tecnológica e exportadora, como a Moura, a certificação B opera como um selo de confiança e um mecanismo de governança ESG auditável.
O desafio para as Empresas B é manter a coerência entre o discurso e a execução. O caminho, apontam os dados, passa por evidência, governança e integração estratégica.




