Desde que entrou em vigor, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) vem transformando a forma como empresas no Brasil lidam com o tema. Embora a lei seja a mesma para todos, a jornada de conformidade de cada organização é única. Essa jornada não se trata de escolha, mas de uma consequência natural da diversidade de estruturas organizacionais, modelos de negócio, maturidade digital, capacidade técnica, cultura de risco e até da própria natureza dos dados tratados.
Segundo Alexandre Antabi, diretor da Macher Tecnologia, trata-se de um erro comum acreditar que exista uma receita para "ficar em conformidade com a LGPD". Em sua visão, a ideia de um "checklist universal" falha ao ignorar que uma empresa do setor de saúde com operação internacional e forte presença digital tem realidades completamente diferentes de uma clínica médica local, um escritório de advocacia ou uma edtech em crescimento. Além do volume de dados tratados, a diferenciação se dá pela forma com que as informações são usadas, com quem são compartilhadas, quais os riscos associados ao negócio e os recursos disponíveis para mitigá-los.
Em seu artigo "Cada empresa, uma LGPD diferente", o especialista reforça que o caminho da adequação deve considerar o "apetite ao risco" da organização, sua capacidade financeira, maturidade tecnológica e objetivos estratégicos. De acordo com o texto, conformidade não é produto de prateleira. É projeto, adaptação e processo contínuo.
Na percepção do executivo, muitas organizações ainda não compreendem que, mesmo entre Pequenas e Médias Empresas (PMEs), a adequação não pode ser negligenciada. Isso porque a LGPD não diferencia startups de grandes corporações quando se trata de obrigações legais. Ainda que os investimentos e prazos possam ser distintos, a responsabilidade existe para todos.
Conforme Antabi sugere, pequenas empresas "podem e devem iniciar o processo com passos estruturantes", como mapear seus fluxos de dados, revisar contratos com fornecedores, implementar políticas básicas e treinar suas equipes. Esse movimento, quando bem orientado, pode ser extremamente estratégico.
Segundo o estudo Cisco 2024 Data Privacy Benchmark, executivos de 95% das empresas participantes dizem obter benefícios comerciais com investimentos em privacidade, incluindo maior fidelização de clientes e vantagem competitiva. Em mercados onde confiança é um ativo, estar em conformidade deixou de ser apenas proteção jurídica — é diferencial de marca.
Na edição de 2025 do mesmo estudo, organizações atentas à proteção de dados reportam maior atratividade junto a clientes e parceiros, mais agilidade para inovar e retorno médio de até duas vezes sobre o investimento em programas de privacidade. Esses dados reforçam que maturidade não significa apenas custo regulatório, mas habilitador direto de crescimento e acesso a oportunidades com grandes empresas globalmente.
Navegando pelo complexo terreno de obrigações, controles, riscos e culturas
O diretor da Macher Tecnologia lembra que a figura do Data Protection Officer (DPO) — o encarregado de proteção de dados — é chave nesse processo, como um articulador entre a lei e a realidade da empresa, cujo papel vai além do compliance burocrático. "O DPO precisa entender o negócio, conhecer os fluxos de dados, identificar os riscos mais relevantes e propor caminhos viáveis para mitigá-los, sem travar a operação. Em contextos com orçamentos mais restritos, como os de PMEs, o DPO precisa ser ainda mais estratégico, priorizando ações que tragam impacto real", destaca.
A construção de uma cultura organizacional voltada à proteção de dados exige envolvimento multidisciplinar, conectando setores diversos, que enxergam riscos e oportunidades de forma diferente, como jurídico, TI, segurança da informação, RH, marketing e produto. Um dos papéis do DPO é garantir que as decisões sobre privacidade não fiquem isoladas nas mãos de uma única área, valorizando a integração e a diversidade das visões.
"Não por acaso, boas consultorias em proteção de dados trabalham com esse modelo de equipe integrada. Um advogado pode compreender as bases legais, mas não conhece os detalhes técnicos de segurança de APIs, de criptografia ou de backups. Um analista de TI pode implementar firewalls e controles de acesso, mas talvez não consiga avaliar se o consentimento obtido é juridicamente válido. A colaboração entre especialidades é o que permite transformar as exigências da LGPD em uma operação fluida, segura e alinhada ao negócio", explica Antabi.
Na visão do diretor da Macher Tecnologia, outro ponto pouco abordado, embora essencial, é que a adequação à LGPD não corresponde a um projeto com início, meio e fim. Isso porque, nesse processo contínuo, o cenário tecnológico muda, os dados se transformam, novos parceiros entram na cadeia e sistemas diferentes são adotados ao longo do tempo. "A conformidade de hoje pode se tornar um risco amanhã, se não houver monitoramento, revisão e ajustes", alerta o executivo.
O próprio Regulamento Europeu de Privacidade (GDPR), inspiração direta da LGPD, já conta com atualizações em andamento. No Brasil, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) segue publicando novas diretrizes, como a Resolução nº 19/2024, sobre tratamento de dados de risco alto; e o Relatório de Impacto à Proteção de Dados Pessoais (RIPD).
De acordo com Antabi, esta é uma das razões para uma empresa escolher modelos como o DPO-as-a-Service, podendo contar com uma equipe especializada e sempre atualizada, sem precisar arcar com a complexidade de montar essa estrutura internamente. Ele avalia que a opção vale tanto para empresas com DPOs internos, que podem se beneficiar de apoio técnico e legal, quanto para aquelas em início de jornada.
"A privacidade se tornou tão estratégica quanto a operação. Empresas que tratam a LGPD como diferencial, e não apenas obrigação, saem na frente em reputação, segurança e crescimento sustentável. Fazer isso com intencionalidade, adequando a estratégia de privacidade à realidade única da organização, é o caminho mais seguro e inteligente. Em tempos de IA, ciberataques sofisticados e parcerias digitais, proteger dados se tornou sinônimo de proteger o próprio negócio", analisa Antabi.




